Com HHI de 0,99 e 4 fornecedores, Brasil importou US$ 778,5 mi em peixe fresco em 2025 com dependência quase total do Chile — racional ou frágil?
Em 2025, o Brasil importou US$ 778,5 milhões em peixes frescos e refrigerados. Quase a totalidade — — veio do Chile. Apenas outros três países registraram algum fluxo, e nenhum com participação que beirasse 1%.
O Índice Herfindahl-Hirschman (HHI) do capítulo chegou a 0,992. Qualquer HHI acima de 0,25 já sinaliza concentração relevante. O da importação brasileira de peixe fresco praticamente toca o teto.
A concentração tem raízes estruturais, não é acidente. O Chile é o segundo maior exportador mundial de salmão, atrás apenas da Noruega. A indústria aquícola chilena — concentrada na Patagônia e nos fiords do sul — tem décadas de maturidade, padrão sanitário equivalente ao europeu e acesso direto a portos refrigerados com capacidade de exportação em larga escala.
O custo de frete do Chile para os portos do sul do Brasil (Rio Grande, Paranaguá) é competitivo. A distância é relativamente curta para uma rota de produto refrigerado, o que preserva a cadeia de frio sem o custo logístico de trazer produto da Europa ou da Noruega.
O resultado prático: salmão chileno chegou ao varejo brasileiro com preço acessível o suficiente para virar proteína de prateleira em supermercados de médio porte — não apenas em lojas premium. Isso criou demanda de escala, que retroalimentou a concentração fornecedora.
Concentração não é automaticamente má. Quando um único fornecedor oferece vantagem comparativa real — qualidade, preço, logística — faz sentido econômico explorá-la. Diversificar artificialmente custa.
O problema aparece quando o ponto único falha. E os vetores de risco para o Chile são conhecidos: floração de algas (marea roja) que fecha zonas de cultivo sem aviso, surtos de ISA (anemia infecciosa do salmão) que derrubaram a produção chilena no passado — o colapso de 2007-2009 zerou praticamente metade da capacidade instalada —, e crise logística nos portos do Pacífico Sul.
Uma interrupção de 60 dias no fornecimento chileno não tem substituto óbvio. A Noruega fornece qualidade superior mas a preço incompatível com o varejo de massa brasileiro. O Peru tem tilápia e anchova, não salmão. O Brasil produtor de peixe de água doce (tilápia, tambaqui) não substitui o refrigerado marinho.
O total de US$ 778,5 mi é expressivo. Mas o HHI de 0,992 com apenas 4 parceiros activos diz algo mais específico: não existe segundo fornecedor em formação. Se houvesse um concorrente ganhando tração — Noruega crescendo de 1% para 4%, por exemplo — o HHI cederia e o número de parceiros subiria. Isso não está acontecendo.
Isso pode mudar se o real se valorizar estruturalmente frente ao euro (tornando o salmão norueguês mais viável), se acordos bilaterais reduzirem tarifas com outros exportadores, ou se o mercado consumidor brasileiro migrar para espécies diferentes. Por ora, são cenários, não tendências.
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