Pasta química de madeira exportada ao Canadá saltou para 76.287 t em 2025, cerca de 400 vezes a média histórica de 14.116 t — spike raro no setor.
O Brasil exportou 76.287 toneladas de pasta química de madeira (celulose kraft) ao Canadá em 2025 — volume equivalente a cerca de 400 vezes a média histórica plurianual do corredor, que se situava em 14.116 toneladas. O número coloca o Canadá, ele próprio um dos maiores produtores mundiais de celulose, na posição de importador relevante de um produto que os canadenses dominam tecnicamente.
A anomalia tem z-score de 11,24 — estatisticamente, um dos desvios mais expressivos registrados no comércio bilateral Brasil-Canadá nos últimos anos. Isso indica que o volume de 2025 não é produto de crescimento gradual: foi um evento discreto, possivelmente um grande contrato pontual.
O Canadá é o quinto maior produtor mundial de celulose de fibra longa, extraída principalmente de coníferas como abeto e pinheiro. O Brasil, por sua vez, domina o segmento de celulose de fibra curta — produzida a partir de eucalipto —, que tem propriedades físico-químicas distintas e atende a segmentos específicos de papel, tissue e embalagem.
A hipótese mais plausível é que o volume de 2025 decorre de uma demanda por fibra curta em indústrias canadenses que não têm oferta doméstica equivalente. Historicamente, os maiores compradores globais de celulose de eucalipto brasileira são China, Europa e alguns mercados asiáticos — o Canadá entrando como comprador relevante indica ou uma mudança no mix de produção local, ou um contrato de revenda para terceiros mercados via trading intermediário.
O real desvalorizado ao longo de 2025 reforçou a vantagem de custo da celulose brasileira frente a fornecedores europeus e da América do Norte. Com o câmbio BRL/USD historicamente elevado, empresas como Suzano, Arauco e APP conseguiram oferecer preços em dólar abaixo da paridade histórica, o que possivelmente tornou economicamente viável o fluxo de celulose do Brasil para o Canadá — um destino incomum para a pauta.
Além do câmbio, 2025 foi marcado por tensões de oferta no mercado global de celulose, com paradas de manutenção não programadas em grandes plants europeias. Esses fatores tipicamente elevam o preço spot e criam janelas para fornecedores alternativos penetrarem em mercados que, em condições normais, seriam autossuficientes.
A indústria de celulose e papel é um dos pilares do agronegócio brasileiro, com capacidade instalada crescente após os grandes projetos greenfield da última década. O Brasil responde por cerca de 35% da celulose de eucalipto comercializada globalmente — uma posição que confere poder de barganha e capacidade de atender volumes pontuais de grande escala sem prejudicar contratos de longo prazo.
A entrada do Canadá em 2025 como destino de grande volume pode ser também reflexo de atividade de trading: atores internacionais comprando celulose brasileira e reexportando para mercados asiáticos via roteiros com escala canadense — uma prática não incomum em períodos de volatilidade de preços.
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